"Dia e Noite", M.C. Escher
Mostrando postagens com marcador resistência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resistência. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Resistência do Homem Cordial

O Brasil foi, durante muito tempo, o país do homem cordial. Ninguém era mais simpático, sorridente e brincalhão que o brasileiro. Ninguém passava na frente de uma casa sem que lhe oferecessem uma cadeira, um cafezinho com açúcar demais e umas bolachas ou uns salgadinhos feitos pela filha mais nova.

No meio do caminho, a coisa mudou. De repente, o país virou de ponta cabeça e as pessoas passaram a se aprisionar voluntariamente em casa para evitar que gente que deveria estar presa aprisionasse-as numa despensa ou banheiro nos fundos de uma casa escondida e ligasse para a família pedindo um resgate.

Nos tornamos assustados e passamos a assustar uns aos outros. Há uns tempos, desci a noite numa parada de ônibus meio esquisita e, sem relógio que estava, perguntei a alguém que passava a hora. O sujeito saiu disparado, sem responder. Julgou que eu iria tomar-lhe o relógio, o telefone, a carteira e talvez os sapatos.

Aparentemente, passou o tempo em que as pessoas faziam uma roda de cadeiras na calçada à noite para comentar os resultados do futebol e a inabilidade dos políticos ou receitas de bolo e o capítulo da novela. Passou o tempo em que vizinhos mandavam as mangas e os cajus que lhe nasciam nos quintais uns para os outros.

Mas a verdade é que, a despeito de tudo, o homem cordial – e a mulher, igualmente cordial – resiste. E é maioria. Ainda insiste para que se entre e se tome um cafezinho, suquinho ou qualquer outra coisa, invariavelmente no diminutivo. Ainda diz “apareça lá em casa”. Não diz o endereço, é verdade. Mas não se pode culpá-lo. O homem cordial é inevitavelmente anacrônico, do tempo em que se sabia onde todo mundo morava. E, se não sabia, era fácil de encontrar. Sempre tinha, nas calçadas, sob a sombra de uma árvore, uma senhora (também cordial) que dava conta do endereço e da vida da cidade toda.

A resistência é silenciosa e, por vezes, imperceptível. Muitos não notam a presença do homem cordial. Alguns chegam a duvidar de sua existência, embora ele seja onipresente. Onde menos se espera, aí também está o homem cordial, com seu sorriso no rosto, por vezes perfeitamente branco, por vezes torto, por vezes privado dos dentes. Mesmo nas passeatas contra George Bush, que acompanharam a visita do presidente estrangeiro, em março de 2007. Enquanto a multidão pichava as ruas e levantava cartazes de “Fora Bush”, “Go Home, Bush” e “Bush: terrorista número 1”, lá estava o homem cordial. Vestia uma cartolina como se fosse camiseta, com os seguintes dizeres: “Bem Vindo ao Brasil Joge Buche".

terça-feira, 11 de setembro de 2007

11 de Setembro

"(...) Pinochet deu o golpe truculento em 11 de setembro de 1973. Nesse dia o estádio de futebol de Santiago foi usado como campo de concentração para a prisão de milhares de chilenos. Entre eles estava um jovem compositor de música popular, líder do movimento chamado Nueva-Canción.

Esse é o mesmo movimento que em Cuba recebeu o nome de Nueva-Trova e que no Brasil foi chamado Música de Protesto. Na América Latina, participando daquele movimento estético e político, se destacavam jovens músicos na faixa dos 20 anos de idade: Silvio Rodriguez, Pablo Milanez, Chico Buarque, Carlos Varella, Benjamin Acevedo e aquele jovem prisioneiro de Pinochet: Victor Jara.

No estádio de futebol, Victor estava com seu violão. Para confortar os compatriotas prisioneiros no campo-de-futebol-concentração, ele começou a tocar seu instrumento. Os militares mandaram ele parar de tocar. Ele não parava. Agarraram-no e o arrastaram para um canto. Executaram cruelmente o único recurso que não mais lhe permitiria tocar violão: com um facão cortaram as duas mãos de Victor. Seus gritos ecoaram no estádio. Mas, teimosa e bravamente, Victor misturava seus gritos a cantos melancólicos com alguns versos fortes e de protesto de suas canções. Aqueles trechos musicais lancinantes de conhecidas melodias da Nueva-Canción, que haviam embalado a campanha presidencial de Salvador Allende, precisavam ser calados pelos milicos. Um tiro na cabeça do Victor Jara sem mãos, sangue aos borbotões saindo de pulsos dilacerados, acabou com uma das maiores promessas da música latinoamericana.
Pela memória do músico Victor Jara, assassinado em 11 de setembro de 1973."

Trecho de texto do maestro Jorge Antunes, compositor e professor da UnB.