"Juíza: Qual é seu nome?
Brodsky: Joseph Brodsky.
Juíza: Qual é sua ocupação?
Brodsky: Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a Corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
Brodsky: Pensei que fosse um trabalho regular.
Juíza: Dê uma resposta precisa.
Brodsky: Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
Brodsky: Eu trabalhava: eu escrevia poemas.
Juíza: Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
Brodsky: Tinha contratos com uma editora.
Juíza: Há quanto tempo o senhor trabalhava?
Brodsky: Tenho trabalhado arduamente.
Juíza: Ora, arduamente! Responda certo.
Brodsky: Cinco anos.
Juíza: Onde o senhor trabalhou?
Brodsky: Numa fábrica, em expedições geológicas...
Juíza: Quanto tempo trabalhou na fábrica?
Brodsky: Um ano.
Juíza: E qual é seu trabalho real?
Brodsky: Sou poeta. E tradutor de poesia.
Juíza: Quem reconheceu o senhor como poeta e lhe deu um lugar entre eles?
Brodsky: Ninguém. E quem me deu um lugar entre a raça humana?
Juíza: O senhor aprendeu isso?
Brodsky: O quê?
Juíza: A ser poeta? Não tentou ir para uma Universidade onde as pessoas são ensinadas, oinde aprendem?
Brodsky: Não pensei que isso pudesse ser ensinado.
Juíza: Então como...?
Brodsky: Eu pensei que... Por vontade de Deus...
Juíza: É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
Brodsky: É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documentom todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
Juíza: O senhor não precisa de ternos, sapatos?
Brodsky: Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
Juíza: Os especialistas aprovaram seus poemas?
Brodsky: Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
Juíza: Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
Brodsky: Eu trabalhava. Eu escrevia poemas...
Juíza: Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
Brodsky: As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
Juíza: Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
Brodsky: A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
Juíza: Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
Brodsky: Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
Juíza: O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
Brodsky: Eu gostaria de saber por que fui preso.
Juíza: Isso não é um pedido; é uma pergunta.
Brodsky: Então não tenho nenhum pedido.
Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal de Arcangel, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos".
PÍLULAS
- NA RÚSSIA, Kasparov foi mandado para o xadrez pela segunda vez no ano. Ao que parece, não estão querendo deixá-lo mudar de profissão. A fala preferida de Putin: Kasparov, volta pro xadrez!
- NA ESPANHA, o rei Juan teria dito: cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!
- NO BRASIL, criou-se a história de que Lula estaria aspirando a uma nova reeleição. A imprensa adorou a tese, que ajuda a desviar o foco, por exemplo, da denúncia do valerioduto tucano pelo Procurador-Geral da República. Saiu também um estudo da FGV mostrando que a pobreza caiu mais nos 4 anos de governo de Lula do que nos 8 de FHC. O pesquisador disse que o mérito foi de ambos. E agora essa propaganda do PSDB, assumindo que todo tucano na verdade é um petista disfarçado, e vice-versa.
- O BRAZIL aparece no calendário da THE ECONOMIST para 2008 com uma referência: "February - Brazilians and foreigners alike dance to hedonistic excess at the Rio de Janeiro carnival". Viva o Brazil!
- A ONU nomeou 2008 o ano internacional da batata. 2007 já está acabando, e 2008 é batata!
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quinta-feira, 29 de novembro de 2007
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