"Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme."
Carlos Drummond de Andrade.
É tudo verdade. Mas, eu sou contra a ocupação (ou invasão, como queiram) da reitoria da UnB.
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sexta-feira, 11 de abril de 2008
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
O julgamento de Joseph Brodsky
"Juíza: Qual é seu nome?
Brodsky: Joseph Brodsky.
Juíza: Qual é sua ocupação?
Brodsky: Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a Corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
Brodsky: Pensei que fosse um trabalho regular.
Juíza: Dê uma resposta precisa.
Brodsky: Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
Brodsky: Eu trabalhava: eu escrevia poemas.
Juíza: Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
Brodsky: Tinha contratos com uma editora.
Juíza: Há quanto tempo o senhor trabalhava?
Brodsky: Tenho trabalhado arduamente.
Juíza: Ora, arduamente! Responda certo.
Brodsky: Cinco anos.
Juíza: Onde o senhor trabalhou?
Brodsky: Numa fábrica, em expedições geológicas...
Juíza: Quanto tempo trabalhou na fábrica?
Brodsky: Um ano.
Juíza: E qual é seu trabalho real?
Brodsky: Sou poeta. E tradutor de poesia.
Juíza: Quem reconheceu o senhor como poeta e lhe deu um lugar entre eles?
Brodsky: Ninguém. E quem me deu um lugar entre a raça humana?
Juíza: O senhor aprendeu isso?
Brodsky: O quê?
Juíza: A ser poeta? Não tentou ir para uma Universidade onde as pessoas são ensinadas, oinde aprendem?
Brodsky: Não pensei que isso pudesse ser ensinado.
Juíza: Então como...?
Brodsky: Eu pensei que... Por vontade de Deus...
Juíza: É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
Brodsky: É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documentom todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
Juíza: O senhor não precisa de ternos, sapatos?
Brodsky: Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
Juíza: Os especialistas aprovaram seus poemas?
Brodsky: Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
Juíza: Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
Brodsky: Eu trabalhava. Eu escrevia poemas...
Juíza: Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
Brodsky: As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
Juíza: Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
Brodsky: A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
Juíza: Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
Brodsky: Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
Juíza: O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
Brodsky: Eu gostaria de saber por que fui preso.
Juíza: Isso não é um pedido; é uma pergunta.
Brodsky: Então não tenho nenhum pedido.
Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal de Arcangel, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos".
PÍLULAS
- NA RÚSSIA, Kasparov foi mandado para o xadrez pela segunda vez no ano. Ao que parece, não estão querendo deixá-lo mudar de profissão. A fala preferida de Putin: Kasparov, volta pro xadrez!
- NA ESPANHA, o rei Juan teria dito: cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!
- NO BRASIL, criou-se a história de que Lula estaria aspirando a uma nova reeleição. A imprensa adorou a tese, que ajuda a desviar o foco, por exemplo, da denúncia do valerioduto tucano pelo Procurador-Geral da República. Saiu também um estudo da FGV mostrando que a pobreza caiu mais nos 4 anos de governo de Lula do que nos 8 de FHC. O pesquisador disse que o mérito foi de ambos. E agora essa propaganda do PSDB, assumindo que todo tucano na verdade é um petista disfarçado, e vice-versa.
- O BRAZIL aparece no calendário da THE ECONOMIST para 2008 com uma referência: "February - Brazilians and foreigners alike dance to hedonistic excess at the Rio de Janeiro carnival". Viva o Brazil!
- A ONU nomeou 2008 o ano internacional da batata. 2007 já está acabando, e 2008 é batata!
Brodsky: Joseph Brodsky.
Juíza: Qual é sua ocupação?
Brodsky: Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a Corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
Brodsky: Pensei que fosse um trabalho regular.
Juíza: Dê uma resposta precisa.
Brodsky: Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
Brodsky: Eu trabalhava: eu escrevia poemas.
Juíza: Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
Brodsky: Tinha contratos com uma editora.
Juíza: Há quanto tempo o senhor trabalhava?
Brodsky: Tenho trabalhado arduamente.
Juíza: Ora, arduamente! Responda certo.
Brodsky: Cinco anos.
Juíza: Onde o senhor trabalhou?
Brodsky: Numa fábrica, em expedições geológicas...
Juíza: Quanto tempo trabalhou na fábrica?
Brodsky: Um ano.
Juíza: E qual é seu trabalho real?
Brodsky: Sou poeta. E tradutor de poesia.
Juíza: Quem reconheceu o senhor como poeta e lhe deu um lugar entre eles?
Brodsky: Ninguém. E quem me deu um lugar entre a raça humana?
Juíza: O senhor aprendeu isso?
Brodsky: O quê?
Juíza: A ser poeta? Não tentou ir para uma Universidade onde as pessoas são ensinadas, oinde aprendem?
Brodsky: Não pensei que isso pudesse ser ensinado.
Juíza: Então como...?
Brodsky: Eu pensei que... Por vontade de Deus...
Juíza: É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
Brodsky: É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documentom todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
Juíza: O senhor não precisa de ternos, sapatos?
Brodsky: Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
Juíza: Os especialistas aprovaram seus poemas?
Brodsky: Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
Juíza: Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
Brodsky: Eu trabalhava. Eu escrevia poemas...
Juíza: Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
Brodsky: As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
Juíza: Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
Brodsky: A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
Juíza: Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
Brodsky: Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
Juíza: O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
Brodsky: Eu gostaria de saber por que fui preso.
Juíza: Isso não é um pedido; é uma pergunta.
Brodsky: Então não tenho nenhum pedido.
Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal de Arcangel, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos".
PÍLULAS
- NA RÚSSIA, Kasparov foi mandado para o xadrez pela segunda vez no ano. Ao que parece, não estão querendo deixá-lo mudar de profissão. A fala preferida de Putin: Kasparov, volta pro xadrez!
- NA ESPANHA, o rei Juan teria dito: cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!
- NO BRASIL, criou-se a história de que Lula estaria aspirando a uma nova reeleição. A imprensa adorou a tese, que ajuda a desviar o foco, por exemplo, da denúncia do valerioduto tucano pelo Procurador-Geral da República. Saiu também um estudo da FGV mostrando que a pobreza caiu mais nos 4 anos de governo de Lula do que nos 8 de FHC. O pesquisador disse que o mérito foi de ambos. E agora essa propaganda do PSDB, assumindo que todo tucano na verdade é um petista disfarçado, e vice-versa.
- O BRAZIL aparece no calendário da THE ECONOMIST para 2008 com uma referência: "February - Brazilians and foreigners alike dance to hedonistic excess at the Rio de Janeiro carnival". Viva o Brazil!
- A ONU nomeou 2008 o ano internacional da batata. 2007 já está acabando, e 2008 é batata!
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