sexta-feira, 11 de abril de 2008
Nosso tempo
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme."
Carlos Drummond de Andrade.
É tudo verdade. Mas, eu sou contra a ocupação (ou invasão, como queiram) da reitoria da UnB.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Quanto pesa a mão de uma criança?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."
Carlos Drummond de Andrade, Os ombros suportam o mundo.
A mão de uma criança pode pesar muito mais do que parece.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Valéry e os cartões corporativos
Ante isso, não posso deixar de concordar com Paul Valéry, em frase citada como epígrafe de Claro Enigma de Carlos Drummond de Andrade:
"Les événements m'ennuient".
[Tradução livre: "Os acontecimentos me aborrecem".]
Melhor Valéry do que Valério.
domingo, 28 de outubro de 2007
No que crêem os que não crêem?
“Brincadeira de criança, as opiniões humanas.”
Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela, tem razão quando diz que “a verdade é sempre um contato interior e inexplicável”: não sei explicar porque creio naquilo em que creio, o fato é que creio – “Pensar é um ato. Sentir é um fato”.
Por que creio em algo? A melhor resposta talvez fosse: creio porque creio. Esse juízo decorre de uma valoração subjetiva, uma intuição instintiva, assim como qualquer outro que pudesse fazer. Isso não significa que não forme minhas opiniões influenciado também – e predominantemente – por argumentos racionais; mas crer na razão é também subjetivo e intuitivo, de modo que apenas às vezes escolhemos ser (ou acontece de sermos) convencidos por ela.
Mas o “porque sim” ou o “creio porque creio” não costuma convencer as outras pessoas – vontade que nós costumamos ter. Para persuadir alguns, temos de dar ao nosso discurso uma aparência racional; outros poderão concordar conosco se apresentarmos argumentos de autoridade; outros poderão ser convencidos por uma poesia ou uma imagem.
É difícil evitar os exageros de posições extremistas: por um lado, a tentação de transformar a nossa visão sobre determinado assunto “na verdade” sobre ele; por outro, a de se negar que nossas opiniões tenham qualquer validade ou utilidade. O primeiro ponto de vista ignora que o conhecimento humano é uma criação humana e, como tal, incompleto, histórico, valorativo, subjetivo, cultural... O segundo compreende o que o primeiro ignora, mas, depois de negar o conhecimento absoluto, acaba por negar também o relativo, não o afirmando como conhecimento.
Sendo o conhecimento humano, demasiado humano, ele não é absoluto, mas isso não o invalida; é esse conhecimento que criamos e utilizamos – “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”, disse Terêncio. Desprezar nossas verdades relativas e falhas pelo fato de elas não serem divinas (absolutas) é para quem quer ser Deus. Eu sou humano. Se não há verdade absoluta, se “a verdade é dividida em metades diferentes uma da outra”, como disse Drummond, isso não nos impede de optar pela nossa; cada um “conforme seu capricho, seu ilusão, sua miopia”.
Brinquemos, então, de criar e escolher verdades – mas a sério, com a seriedade com que brinca uma criança. Nunca nos esqueçamos de que nossas verdades são produto de uma brincadeira de criança. E nunca nos esqueçamos de que tal brincadeira é o que fazemos de mais sério em nossas vidas.
Eu, de acordo com o meu astigmatismo, vou escolhendo as metades que me agradam.
P.S.:
VERDADE
Carlos Drummond de Andrade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
[A porta da verdade? Lembremos do próprio Drummond:
"Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta" ...
"E agora, José?"
"E agora, você?"]P.P.S.: este texto tem já mais de um ano. Mas, por incrível que pareça, não mudei de opinião desde então sobre o assunto tratado nele. Devo estar envelhecendo - agora vejo que não foi à toa que me disseram isso outro dia...
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Claro enigma
Quem é o autor das tautológicas frases a seguir?
"Contudo, quem duvida que vive, recorda, entende, quer, pensa, conhece e julga? Porque, se duvida, vive; se duvida, lembra-se da dúvida; se duvida, entende; se duvida, é porque busca a certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida é porque julga que não deve concordar temerariamente. E ainda que duvide de todas as outras coisas, não pode duvidar destas, pois, se não existissem, seria impossível qualquer dúvida."
"De forma alguma temo os argumentos dos acadêmicos quando perguntam: mas, e se te enganas? - Se me engano, existo, pois quem não existe não pode sequer se enganar. Se, pois, existo porque me engano, como me enganarei a respeito da minha existência quando tenho a certeza de existir pelo fato de que me engano?"
Quem acertar ganha um belo jogo de palavras da Tramontina.
Não duvide.