"Dia e Noite", M.C. Escher
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Uma Nova Forma de Fazer Política

Durante um longo tempo, a política no Brasil (e em outras partes do mundo – não sejamos exclusivistas) se revezou entre promessas que não entravam no papel e projetos que não saiam dele. Eleições e inícios de governos foram períodos particularmente fecundos para esse tipo de coisa. Acredito que você lembra, por exemplo, do “Fome Zero”, do “Pacto Social” e de muitos outros exemplos que foram pouco longe.
Chega uma hora, contudo, em que a população cansa, e torna-se necessário oferecer algo mais. Vejo que essa hora se aproxima, e as mudanças começam a surgir.
Atingimos nos últimos anos um avanço possivelmente histórico. Ao invés de inventar projetos mirabolantes, que muito provavelmente não surtiriam efeito algum, inauguramos uma Nova Era. Agora, a política está sendo feita de outro jeito: basta escolher uma dúzia de projetos e ações já existentes – ou várias dúzias, dependendo da visibilidade que se procura – e agrupá-las debaixo de um nome novo. Os projetos e ações escolhidos devem existir a muito tempo e, de preferência, não trazer nenhuma inovação, porque inovação pode acabar atrasando o andamento. Se tudo já estivesse previsto no orçamento para ser implantado, independente dos malabarismos do governo, melhor ainda.
Só existe uma restrição: o nome escolhido deve ser bonito, ter uma boa sonoridade e conquistar os eleitores. Pode se chamar Programa de Aceleração do Crescimento, Territórios da Cidadania, ...
Propaganda ainda é a alma do negócio.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sinapses e Aplausos

- Shh... O maestro está entrando. Nós deveríamos aplaudir.
- Por quê? Ele ainda não fez nada.

Acredito que todo mundo já deve ter visto uma daquelas imagens que, a princípio, parecem apenas uma paisagem, mas, à medida que se olha com atenção, é possível descobrir vários rostos e perfis humanos. Ou então aqueles quadros com amontoados de frutas que, no todo, formam uma face. Acontece que o nosso cérebro é incrivelmente capacitado na tarefa de perceber e visualizar rostos humanos. Afinal de contas, nós convivemos o tempo todo com pessoas e grande parte da nossa percepção consciente e da nossa memória está voltada para seus rostos. Assim, o cérebro se prepara para ver rostos, mesmo que eles não estejam objetivamente lá.
Do mesmo modo, o cérebro humano é incrivelmente capacitado para imaginar. E isso nos leva a projetar o que pensamos em situações que, objetivamente, também não estão lá. É o caso do rapaz que andava sozinho num lugar esquisito à noite, preocupado com a possibilidade de ser assaltado: quando alguém passou ao lado e lhe perguntou a hora, ele subitamente retirou o relógio do pulso, o entregou e saiu correndo.
Isso também ocorre com nossos desejos, esperanças, sonhos. O cérebro humano trata de distorcer a realidade para que ela se encaixe – e depois se descobre errado. Alguém pode argumentar: triste aquele que não se ilude, que não se engana! E não deixa de ter razão.
O problema não está no engano. Nos enganamos o tempo todo. O problema está nos aplausos. Baseado em evidência nenhuma que não os próprios desejos e esperanças, aplaude-se e festeja-se o que está errado. “E um erro traz um erro”, já dizia Sófocles. Às vezes, só se percebe o engano tarde demais.

O diálogo lá de cima é de uma tirinha da turma do Snoopy. Não sei como postá-la aqui. Mas sei que, como a personagem, só devemos aplaudir quando termina.