"Dia e Noite", M.C. Escher
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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Basta uma frase

(Sobre o post imediatamente anterior a esse)

Nunca se deve subestimar o poder de uma frase. As frases corretas moveram o mundo, mudaram as pessoas, venceram e perderam batalhas. “Give me freedom, or give me Death” e “se não agora, quando estaremos mais fortes?” de Patrick Henry tornaram os Estados Unidos independentes. “Nada tenho a vos oferecer senão sangue, suor e lágrimas” manteve a Inglaterra de pé quando toda a Europa parecia cair. “O sonho acabou” de John Lennon pôs fim a uma era. “Pode se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo mundo todo o tempo” ecoou em várias épocas. “Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”. “Não pergunte o que o país pode fazer por você”. “Vim, vi, venci”. “Se quer a paz, prepare-se para a guerra”.

É convencido da importância das frases que, vez ou outra, o Diários & Noturnos faz um post com uma única frase. Se ela não diz nada e não leva a coisa alguma... paciência! Já dizia Millôr Fernandes: “basta uma frase para subir de posição ou conquistar uma bela mulher. O problema é saber que frase é essa”.

(Millôr Fernandes é que leva jeito para frases bem feitas)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Herói Americano

(Supostamente, o blog deveria publicar sua posição sobre a corrida presidencial americana. Mas nossas opiniões divergem... hehehehehe Nesse momento, declaro meu apoio inútil)

Arnold Schwarzenegger e Rudy Giuliani se referiram assim a John McCain essa semana, quando ratificaram o apoio à candidatura do senador.
McCain foi prisioneiro de guerra durante 5 anos no Vietnã, 3 deles na solitária. Piloto da Marinha, teve a asa do avião atingida por um míssil durante a sua 23ª missão de bombardeio. Ejetado do avião, caiu num lago, quebrou um braço e uma perna e foi feito prisioneiro por vietnamitas. Ser capturado não torna ninguém herói; mas McCain recusou durante anos a fio a libertação em prol dos prisioneiros que estavam lá há mais tempo. (Interessante é ver que John McCain II, pai do candidato, ordenou, enquanto Almirante da Marinha no Vietnã, bombardeios no perímetro em que o filho era mantido refém).
Ser herói de guerra, contudo, não qualifica ninguém à presidência da república. Mas a carreira política de McCain o qualifica. Começou em 1982, com na Câmara e, depois, no Senado. Sua trajetória parlamentar é marcada pela defesa do dinheiro dos contribuintes, confrontando empreiteiras e parlamentares, aprofundando-se até a questão do financiamento de campanhas (um parlamentar com atuação semelhante seria bem-vindo no Brasil) e pela coerência. Mantém-se na defesa da presença de tropas no Iraque, por mais votos que possa perder, embora critique a forma como a guerra foi conduzida. Defende redução de impostos e de restrições ao financiamento de pesquisas com células-tronco. Apoiou o aumento da cobertura do sistema de saúde a idosos e crianças, a legalização de imigrantes (se falarem inglês e pagarem impostos) e os limites aos gases estufa.
Dizem que Obama lembra de certa forma o presidente Kennedy. McCain tem um ar de Churchill. O mesmo humor ácido e, por vezes, auto-depreciativo do inglês. Controvérsias no passado (McCain colecionou deméritos na Marinha; Churchill colecionou desastres militares na Primeira Guerra). Sobrevivência nas dificuldades (McCain sobreviveu a duas quedas de avião, uma explosão num porta-aviões, tortura, câncer e um divórcio; Churchill também viu a morte passar perto várias vezes).
E a certeza de não desistir quando o país precisar.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A Política das Canetas

Contaram-me recentemente que, quando era governador do Rio Grande do Norte, o atual presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho, foi a uma FIART (Feira Internacional de Artesanato, evento que ocorre a intervalos regulares aqui em Natal). Tomou a palavra. Faltavam alguns poucos meses pro fim do seu mandato – não sei se o primeiro ou o segundo. O então governador disse que reconhecia que não havia feito tanto pelo artesanato potiguar, mas que, com “o restinho de tinta da caneta”, pretendia fazer ainda muita coisa.
Os presentes sorriram. Alguns indivíduos, cuja fortuna depende dos favores de seja lá quem esteja no poder, gargalharam (o Rio Grande do Norte ainda é um estado pequeno o suficiente para que fortunas, reputações e carreiras sejam feitas de acordo com as simpatias do “Poder”). Mas se acharam aquilo engraçado, foi por não compreender que, no fim das contas, aquela frase não era um projeto inovador, não era um plano técnico, não era nem mesmo uma promessa – era apenas a maneira mais arcaica de se fazer política, a com piores resultados.
Não pretendo fazer uma crítica pessoal (juro). O que critico é a forma como se faz política nesse país. Existem exceções –graças a Deus! De qualquer forma, boa parte da vida política desse país resume-se a mandatos sem projetos, sem idéias, sem agenda; a promessas que não entram e projetos que não saem do papel; a obras que não tem fim e obras que não tem finalidade. A gente que entrou na vida pública não porque tinha um sonho ou uma aspiração superior, mas porque tinha determinados sobrenomes ou determinados apetites - e logo passou a acreditar que governar era abrir estradas e assinar papéis.

Churchill dizia que “os homens públicos orgulham-se de ser servidores do Estado e se envergonhariam de ser seus senhores”. O pessoal por aqui não leva isso muito a sério. E continua a fazer política só com a caneta.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O Poder do Símbolo

Nada se faz nesse mundo sem um símbolo. Sem um objeto, um mito, um herói – nenhuma batalha é perdida ou ganha. A fé no símbolo é maior que ele próprio. Sua importância só pode ser medida pelo que representa.
“Sabe como tornar as crianças mais patrióticas? Conte-lhes como Wolfe tomou Quebec”, dizia Churchill. Na guerra dos Sete Anos, o General Wolfe tomou a cidade ao custo da própria vida, numa batalha de poucos minutos. O fato considerável é que nem mesmo o amor à terra de nossos pais escapa da necessidade de um símbolo, de um mito, de um herói. Recorremos a eles quando precisamos de força, esperança, apoio.
Após o 11 de setembro, Bush apelou à memória de Churchill, o homem que resistiu sozinho e não perdeu a Segunda Guerra. Evo Morales e Hugo Chavez constantemente evocam a memória de Simon Bolívar.
Os gregos têm Aristóteles, Péricles, Leônidas. Os ingleses, Duque Wellington, Lorde Nelson, William Shakespeare. Os franceses, Napoleão Bonaparte, Voltaire, General De Gaulle. Os portugueses têm Luís Camões, Vasco da Gama. Os italianos têm Júlio César, Otávio, Marco Aurélio. Os mongóis têm Gengis Khan. Os americanos têm Thomas Jefferson, George Washington, Franklin Delano Roosevelt. Gandhi, na Índia. Mao Tse-Tung, na China. Em Cuba e por aí, Che Guevara. Na Romênia, Vlad, o Empalador, também deve ter seus admiradores.
Se a resistência francesa na segunda guerra foi superestimada, se a independência americana não pôs fim à escravidão, se as revoluções cubana e soviética levaram a ditaduras cruéis, paciência! Afinal de contas, ninguém está escrevendo um livro de história (a experiência brasileira recente diz que mesmo os que estão não se importam muito com a coisa).
Quando tentaram levar um projeto adiante sem um símbolo ou quando o símbolo saiu errado, a coisa logo desandou. Como os Estados Unidos venceriam a guerra do Vietnã se o grande símbolo era a menina vietnamita correndo, com o corpo queimado? Muito mais fácil seria vencer um homem que, por trás do bigode engraçado e da Cruz de Ferro, vociferava na frente de multidões armadas.
(Abrindo um parêntese para fechá-lo logo, o símbolo “democracia” recentemente não tem tido bons resultados. Pelo menos, não os que “liberdade” e “sobrevivência da nação” vinham tendo no século XX).
Um dos muitos problemas (e dos menos relevantes, claro) do Brasil é a falta do grande símbolo, do grande herói, da identidade. A idéia de país plural, com a fusão democrática de várias raças, é bonita e ótima para dias de festa, mas não torna nenhuma criança mais patriótica. Os heróis nacionais até hoje também não convenceram muito: o único que ganhou feriado próprio foi líder discutível e bode expiatório de uma revolta que nem chegou às ruas.
O que devemos contar às crianças brasileiras?