"Dia e Noite", M.C. Escher

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Just when I thought I was out...

http://www.youtube.com/watch?v=UPw-3e_pzqULink

They pull me back in!

É isso. No meio de uma noturna madrugada (há também as diurnas, mas essa hora ainda não chegou), tomei de repente a decisão de retomar o Diários & Noturnos em 2012. Retomado está! Sim, ainda é 2011, e daí? O tempo não existe, dizia um sábio e corujesco amigo.

Pra você que não me conhece, sou Ex-Pirro, e me apresentei aqui, faz mais de quatro anos:

Em que Ex-Pirro diz quem é e a que vai

Espero que Hipócrata também retorne, e Zorroastro finalmente dê as caras no ano novo!

Adeus, ó Esteves!


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Novidades na blogosfera

O D&N morreu e esqueceram de enterrar. Se ele vai renascer um dia? Não sei.

Caso alguém ainda circule por aqui, no entanto, ficam duas indicações:

Liberdade Política (meu blog pessoal): http://liberdadepolitica.wordpress.com/

Blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento: http://www.brasiledesenvolvimento.wordpress.com/

Confiram também a lista de blogs recomendados na barra ali do lado, são todos muito bons.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Impossível

É impossível provar a impossibilidade de qualquer coisa.

O impossível é impossível.

Viva o paradoxo.

Mas, se o impossível é impossível, é possível que ele seja possível. Não é?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sarah Palin

Você já viu alguém colocar batom em um pitbull?
Pois é...
Existe um motivo pra isso...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

McCain passa a frente...

Da agência de notícias Reuters:
WASHINGTON - Numa aparente reviravolta na campanha eleitoral americana, o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, John McCain, abriu cinco pontos de vantagem sobre seu adversário democrata, Barack Obama, chegando a 46% das intenções de voto, contra 41% do rival, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Zogby em parceria com a agência de notícias Reuters. Pesquisa realizada pelo mesmo instituto em julho mostrava Obama com a larga vantagem de 7 pontos sobre McCain, que, segundo as sondagens mensais do Zogby, supera agora o concorrente pela primeira vez.
A sondagem mostra também que o republicano é visto como melhor administrador para a economia do país, o que, diante da crise enfrentada pelos EUA, pode ser fator decisivo nas eleições de 4 de novembro. A suposta inaptidão de Obama para enfrentar o problema foi tema de campanhas agressivas de McCain nas últimas semanas.

domingo, 3 de agosto de 2008

O Malabarista

E lá estava o malabarista, tentando equilibrar todas as coisas...

Não fazia mais floreios como quando começara. Não fingia mais que deixaria as bolas caírem no chão apenas para apanhá-las de um modo surpreendente. Não tinha mais o mesmo entusiasmo e a mesma energia. Não queria mais isso. Mas não poderia de forma alguma deixar tudo aquilo no chão.

Cansara-se. E, cansando que estava, não podia ver que, junto com as suas esferas de vidro, jogava para o alto o mundo inteiro e o seu próprio coração.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Filosofias de Calçada

Em homenagem ao retorno do blog Filosofias de Calçada, postamos o trecho de Seinfeld que foi citado lá no post de reestréia:

"Cosmo Kramer: You’re wasting your life.
George Costanza: I am not. What you call wasting, I call living. I’m living my life.
Cosmo Kramer: OK, like what? No, tell me. Do you have a job?
George Costanza: No.
Cosmo Kramer: You got money?
George Costanza: No.
Cosmo Kramer: Do you have a woman?
George Costanza: No.
Cosmo Kramer: Do you have any prospects?
George Costanza: No.
Cosmo Kramer: You got anything on the horizon?
George Costanza: Uh, no.
Cosmo Kramer: Do you have any action at all?
George Costanza: No.
Cosmo Kramer: Do you have any conceivable reason for even getting up in the morning?
George Costanza: I like to get the Daily News."

Nunca deixei de acreditar na volta do Filosofias de Calçada, tanto é que o mantive aqui no blogroll esse tempo todo. E, claro, Seinfeld foi a melhor série de todos os tempos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Resistência do Homem Cordial

O Brasil foi, durante muito tempo, o país do homem cordial. Ninguém era mais simpático, sorridente e brincalhão que o brasileiro. Ninguém passava na frente de uma casa sem que lhe oferecessem uma cadeira, um cafezinho com açúcar demais e umas bolachas ou uns salgadinhos feitos pela filha mais nova.

No meio do caminho, a coisa mudou. De repente, o país virou de ponta cabeça e as pessoas passaram a se aprisionar voluntariamente em casa para evitar que gente que deveria estar presa aprisionasse-as numa despensa ou banheiro nos fundos de uma casa escondida e ligasse para a família pedindo um resgate.

Nos tornamos assustados e passamos a assustar uns aos outros. Há uns tempos, desci a noite numa parada de ônibus meio esquisita e, sem relógio que estava, perguntei a alguém que passava a hora. O sujeito saiu disparado, sem responder. Julgou que eu iria tomar-lhe o relógio, o telefone, a carteira e talvez os sapatos.

Aparentemente, passou o tempo em que as pessoas faziam uma roda de cadeiras na calçada à noite para comentar os resultados do futebol e a inabilidade dos políticos ou receitas de bolo e o capítulo da novela. Passou o tempo em que vizinhos mandavam as mangas e os cajus que lhe nasciam nos quintais uns para os outros.

Mas a verdade é que, a despeito de tudo, o homem cordial – e a mulher, igualmente cordial – resiste. E é maioria. Ainda insiste para que se entre e se tome um cafezinho, suquinho ou qualquer outra coisa, invariavelmente no diminutivo. Ainda diz “apareça lá em casa”. Não diz o endereço, é verdade. Mas não se pode culpá-lo. O homem cordial é inevitavelmente anacrônico, do tempo em que se sabia onde todo mundo morava. E, se não sabia, era fácil de encontrar. Sempre tinha, nas calçadas, sob a sombra de uma árvore, uma senhora (também cordial) que dava conta do endereço e da vida da cidade toda.

A resistência é silenciosa e, por vezes, imperceptível. Muitos não notam a presença do homem cordial. Alguns chegam a duvidar de sua existência, embora ele seja onipresente. Onde menos se espera, aí também está o homem cordial, com seu sorriso no rosto, por vezes perfeitamente branco, por vezes torto, por vezes privado dos dentes. Mesmo nas passeatas contra George Bush, que acompanharam a visita do presidente estrangeiro, em março de 2007. Enquanto a multidão pichava as ruas e levantava cartazes de “Fora Bush”, “Go Home, Bush” e “Bush: terrorista número 1”, lá estava o homem cordial. Vestia uma cartolina como se fosse camiseta, com os seguintes dizeres: “Bem Vindo ao Brasil Joge Buche".

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Basta uma frase

(Sobre o post imediatamente anterior a esse)

Nunca se deve subestimar o poder de uma frase. As frases corretas moveram o mundo, mudaram as pessoas, venceram e perderam batalhas. “Give me freedom, or give me Death” e “se não agora, quando estaremos mais fortes?” de Patrick Henry tornaram os Estados Unidos independentes. “Nada tenho a vos oferecer senão sangue, suor e lágrimas” manteve a Inglaterra de pé quando toda a Europa parecia cair. “O sonho acabou” de John Lennon pôs fim a uma era. “Pode se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo mundo todo o tempo” ecoou em várias épocas. “Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”. “Não pergunte o que o país pode fazer por você”. “Vim, vi, venci”. “Se quer a paz, prepare-se para a guerra”.

É convencido da importância das frases que, vez ou outra, o Diários & Noturnos faz um post com uma única frase. Se ela não diz nada e não leva a coisa alguma... paciência! Já dizia Millôr Fernandes: “basta uma frase para subir de posição ou conquistar uma bela mulher. O problema é saber que frase é essa”.

(Millôr Fernandes é que leva jeito para frases bem feitas)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

sábado, 10 de maio de 2008

“Quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”

Algumas das melhores lembranças que eu tenho de 2002 são de tardes passadas assistindo a TV Senado. Eu tinha só uns 13 anos na época, mas costumava assistir junto com meu irmão mais velho. As grandes atrações eram a luta incessante do Senador Pedro Simon pela candidatura própria do PMDB - “o velho MDB de guerra” – e as lideranças do PSDB. Não lembro quem era o líder do governo e quem era o líder do partido, mas Geraldo Melo e Artur da Távola davam espetáculos à parte. Talvez tenha sido a qualidade do discurso dos dois que me fazia ter tanta simpatia pelo governo Fernando Henrique e defendê-lo nas conversas com os amigos (embora, hoje, eu não saiba o que fazia um moleque de 13 anos ficar discutindo política...).

Artur da Távola e Geraldo Melo não voltaram a ocupar cadeiras no Senado: duas grandes perdas para o debate político brasileiro. Meu interesse pelas sessões foi diminuindo, até desaparecer quase completamente. Só voltei a acompanhar as atividades do Parlamento momentaneamente, nos últimos momentos de Roberto Jefferson.

Nos últimos anos, o Senador Artur da Távola ainda manteve minha audiência na TV Senado com o programa “Quem tem medo de música clássica?”. Todo domingo, apresentava algumas peças novas e ensinava o que era um andamento, o que era um fagote, o que era um barítono ou coisa do tipo (eu aprendi quase nada). Passada uma hora, terminava o programa com sua célebre frase: “Música é vida interior e quem tem vida interior, jamais padecerá de solidão”.

Artur da Távola morreu ontem, 9 de maio. Mas, com seus discursos, contos, crônicas, colunas e o programa da TV Senado, deixou um país menos só.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

21 de abril e o brasileiro

Em outro texto no blog, discuti a relevância dos feriados brasileiros e heróis nacionais. Tiradentes em particular. A História ainda não está certa do papel dele na Inconfidência. De um lado, há quem diga que ele foi realmente um dos grandes líderes da revolução que não chegou às ruas. De outro, há quem diga que ele foi meramente o grande bode expiatório do movimento.

O fato da revolta jamais ter chegado às ruas talvez já fosse o suficiente para não comemorá-la. Espera-se de revoluções que derrubem bastilhas, derrubem tiranos, levantem barricadas. A Inconfidência não levantou nem mesmo a voz. Não sei ao certo, mas é possível que sejamos o único país a ter um feriado para boas intenções frustradas.

Tiradentes foi enforcado, teve o corpo “dividido em quatro quartos e pregado em postes pelo caminho de Minas”, de acordo com sua sentença. Foi declarado infame, assim como seus filhos e netos. Seus bens foram confiscados; sua casa, arrasada e salgada, “para que nunca mais no chão nada se edifique”. Isso tudo para servir de exemplo àqueles que quisessem se revoltar contra os impostos. Serviu mesmo. Na época, o imposto era de 20% sobre o ouro. Hoje, a gente paga quase 40% sobre qualquer coisa e, exceção feita a alguns democratas, ninguém diz nada. Aparentemente, a Inconfidência não nos legou grandes lições. Aprendemos mais enquanto nação com os malandros que, à época, preenchiam com ouro os santos de madeira.

Acredito que em 23 de abril já exista distância histórica o suficiente para falar do dia 21. Feriado de Tiradentes, o Joaquim José da Silva Xavier. O homem que foi traído e não traiu jamais a Inconfidência de Minas Gerais. Ônibus pela metade do valor. Segunda-feira, mas com um evidente ar de domingo. Não encontrei nenhuma palavra sobre Tiradentes nos jornais, nos diálogos com os conhecidos. Nada.

Nelson Rodrigues dizia que “o brasileiro é um feriado”. Possivelmente, esse é o grande mérito do dia 21 de abril e é assim que Tiradentes representa o brasileiro.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Antes do Tempo

"Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."

Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela, de Clarice Lispector.

O tempo sempre existiu ou ele teve um começo?

O tempo sempre existiu. Porque caso não existisse antes de existir, não haveria antes: não se poderia falar em antes nem em sempre nem em nunca caso não houvesse tempo. Não pode haver tempo antes do tempo. O tempo sempre existiu.

Paradoxalmente, no entanto, o fato de ter sempre existido não significa que não possa ter tido um começo. Apenas não se pode afirmar que tenha existido um tempo antes do tempo: porque antes do tempo não havia tempo, então não havia antes.

Não sei se isso é uma tautologia, um paradoxo ou ambos. Mas, seja o que for, revela que o fato de o tempo sempre ter existido não refuta a possibilidade de que tenha começado. Sim, é paradoxal. E, ao mesmo tempo, é tautológico. Existirá esse categoria, a dos paradoxos tautológicos?

Se sempre existiu, como pode ter tido um começo?

Quem sabe? Falar em começo do tempo e do universo é falar em Deus ou no nada. Sobre o nada, só sabemos uma coisa: ele nadifica. Já sobre Deus...

Quem tem a razão, Rodrigo S. M. e os gregos ou Santo Agostinho e os físicos contemporâneos?

Não sei. Cada um com a sua mitologia temporal.

Alguém entendeu este post?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Nosso tempo

"Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme."

Carlos Drummond de Andrade.

É tudo verdade. Mas, eu sou contra a ocupação (ou invasão, como queiram) da reitoria da UnB.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Opa!

"O mundo se divide em dois tipos de pessoas: as que gritam Oba! e as que exclamam Epa!"
Ivan Lessa.

Outra divisão possível é entre as pessoas que perguntam "e daí?" e as que indagam "por quê?". As primeiras nunca querem saber. As segundas sempre querem.

Este blog, em geral, grita Epa! e pergunta por quê.

P.S.: depois de postar isto, vi que Diogo Mainardi escreveu sobre o assunto Oba!/Epa! na Veja. Não tinha visto a frase , só nesta entrevista de Ivan Lessa.

Digam Epa! a Mainardi.

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Câncer Gástrico de Napoleão

Dizem que, no dia 4 de maio de 1821, Napoleão resolveu fugir a nado de Santa Helena, mas desistiu porque a água estava excessivamente gelada. No dia 5 de maio, Napoleão morreria. Desde então, algumas pessoas utilizam essa suposta história para dizer que não devemos deixar as coisas pra amanhã.
Estudos recentes indicam que Bonaparte tinha um câncer gástrico em estado terminal. Um tumor de 10 cm, invadindo profundamente as paredes do estômago, com os linfonodos alcançados. Com os tratamentos de hoje, ele teria menos de 50% de chance de viver mais 1 ano e menos de 10% de viver 5 anos. E a medicina na França de 1821 - e a de Santa Helena em particular - não era lá essas coisas.
De vez em quando, não importa o que você faça, simplesmente lasca tudo...

domingo, 9 de março de 2008

Millor Fernandes, para Antígona

"Há sempre duas faces na mesma moeda
Cara: um herói.
Coroa: um tirano.
Algo mudou, bem sei;
A ambição mudou de traje,
A guerra, de veículo,
O poder, de método.
O mundo girou muito
Mas o homem mudou pouco.

"Porém repetir uma história
É nossa profissão, e nossa forma de luta.
Assim, vamos contar de novo
De maneira bem clara
E eis nossa razão:
Ainda não acreditamos que no final
O bem sempre triunfa.
Mas já começamos a crer, emocionados,
Que, no fim, o mal nem sempre vence.
O mais difícil da luta
É descobrir o lado em que lutar."

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Uma Nova Forma de Fazer Política

Durante um longo tempo, a política no Brasil (e em outras partes do mundo – não sejamos exclusivistas) se revezou entre promessas que não entravam no papel e projetos que não saiam dele. Eleições e inícios de governos foram períodos particularmente fecundos para esse tipo de coisa. Acredito que você lembra, por exemplo, do “Fome Zero”, do “Pacto Social” e de muitos outros exemplos que foram pouco longe.
Chega uma hora, contudo, em que a população cansa, e torna-se necessário oferecer algo mais. Vejo que essa hora se aproxima, e as mudanças começam a surgir.
Atingimos nos últimos anos um avanço possivelmente histórico. Ao invés de inventar projetos mirabolantes, que muito provavelmente não surtiriam efeito algum, inauguramos uma Nova Era. Agora, a política está sendo feita de outro jeito: basta escolher uma dúzia de projetos e ações já existentes – ou várias dúzias, dependendo da visibilidade que se procura – e agrupá-las debaixo de um nome novo. Os projetos e ações escolhidos devem existir a muito tempo e, de preferência, não trazer nenhuma inovação, porque inovação pode acabar atrasando o andamento. Se tudo já estivesse previsto no orçamento para ser implantado, independente dos malabarismos do governo, melhor ainda.
Só existe uma restrição: o nome escolhido deve ser bonito, ter uma boa sonoridade e conquistar os eleitores. Pode se chamar Programa de Aceleração do Crescimento, Territórios da Cidadania, ...
Propaganda ainda é a alma do negócio.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A lógica de Al Capone

Em 1929, Al Capone foi escolhido nos Estados Unidos como um dos homens mais importantes do ano, ao lado de gente como Albert Einstein e Mahatma Gandhi.
O chefão mafioso de Chicago foi um dos que mais lucrou com a Lei Seca. Controlava com violência o comércio de bebida, a prostituição, os clubes noturnos, pontos de jogos, bancas de apostas, etc etc etc. E insistia em se manter constantemente na mídia. Suas atividades ilegais eram de conhecimento geral. Mas ninguém ousava desafiá-lo.
Em 1931, Al Capone foi preso, julgado e condenado. Em outubro, começou a cumprir pena. Seu grande crime, no fim das contas, foi sonegar imposto de renda, o que pode ser considerado uma violação bastante irrelevante em comparação com as demais que cometeu.
É engraçado ver hoje, com a crise dos cartões corporativos, a discussão sobre grandes e pequenos crimes, como se os menores fossem sempre dignos de perdão. Al Capone teria aprovado essa lógica. E saido impune.